DEVOÇÃO E LITURGIA: NÃO SÃO A MESMA COISA

01 de Outubro de 2026

"DEVOÇÃO E LITURGIA: NÃO SÃO A MESMA COISA"

Nas últimas décadas, os homens e mulheres têm passado por uma grande transformação em seu modo de viver e se relacionar. A invenção e a popularização da internet e, com ela, das redes sociais, estabeleceram novos padrões de comportamento. Isso afetou também, como não poderia deixar de acontecer, a vida religiosa. Neste artigo, pretendo apenas acenar a alguns elementos que precisam ser mais longamente refletidos, mas que possuem um amplo espaço na vida do cristão católico.

Na vida da Igreja, convivem muitas formas de oração e culto. Celebramos a Eucaristia, recebemos os sacramentos, rezamos o rosário, fazemos novenas, participamos de procissões, peregrinações, vias-sacras e momentos de adoração. Tudo isso pertence, de algum modo, à experiência cristã. Mas nem tudo possui a mesma natureza. É importante, portanto, distinguir liturgia de devoção. Essa distinção não pretende desvalorizar a religiosidade popular nem diminuir o valor das devoções. Ao contrário. Quando sabemos qual é o lugar de cada uma, compreendemos melhor sua importância e evitamos confusões que podem empobrecer tanto a liturgia quanto a própria piedade dos fiéis.

A devoção é uma forma de piedade pela qual o fiel manifesta sua fé, alimenta sua relação com Deus e expressa sua confiança, seu amor e sua gratidão. O rosário é uma devoção. A via-sacra é uma devoção. Uma novena é uma devoção. Também pertencem a esse universo as peregrinações, as ladainhas, as procissões, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, à Virgem Maria e aos santos. Essas práticas podem ser individuais ou comunitárias. Algumas surgiram há muitos séculos; outras são mais recentes. Algumas nasceram de tradições religiosas particulares; outras se difundiram amplamente entre o povo cristão. Com a facilidade de comunicação trazida pelas mídias sociais, as devoções têm aumentado enormemente.

Há nisso uma grande riqueza. Uma pessoa pode ter especial devoção a São José; outra a Nossa Senhora Aparecida; outra a São Francisco de Assis. Alguém pode encontrar grande alimento espiritual no rosário; outro, na via-sacra; outro ainda, na adoração eucarística. Tudo isso é legítimo. A devoção possui uma dimensão fortemente pessoal e afetiva. Ela ajuda o fiel a interiorizar a fé e a manter viva sua relação com Deus no cotidiano. Por seu caráter pessoal, mesmo quando praticada em grupos, como no caso daqueles que se reúnem para o terço, goza de grande liberdade.

A liturgia é algo diferente. O Concílio Vaticano II (1962-1965) afirma que ela é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo. Na liturgia, portanto, não estamos simplesmente diante de pessoas que se reúnem para rezar. Estamos diante da ação de Cristo em sua Igreja. Quando a comunidade celebra a Eucaristia ou qualquer outro sacramento, é a própria Igreja que age sacramentalmente. Também a Liturgia das Horas pertence a essa oração oficial da Igreja. Por isso, a liturgia não é uma devoção entre outras. Ela possui outra natureza.

Na devoção, o fiel pode escolher livremente determinada prática, conforme sua sensibilidade espiritual. Na liturgia, porém, entramos numa ação que já pertence à Igreja. Podemos dizer: “Tenho devoção a este santo”. Não podemos dizer, no mesmo sentido, “Tenho minha liturgia”. A liturgia não é propriedade do sacerdote, do grupo de canto ou da comunidade local. Ela é recebida da Igreja.

É por isso que existem livros litúrgicos, normas, ministérios, tempos, gestos e estruturas celebrativas. Tudo isso garante que a celebração seja realmente ação da Igreja, e não expressão das preferências pessoais de quem preside ou participa. O Papa Francisco expressou magistralmente essas ideias em sua Carta Apostólica Sobre a Formação Litúrgica do Povo de Deus:

“a ação celebrativa não pertence ao indivíduo; mas, sim, a Cristo-Igreja, à totalidade dos fiéis unidos em Cristo. A Liturgia não diz ‘eu’, mas ‘nós’, e qualquer limitação da amplitude desse ‘nós’ é sempre demoníaca. A Liturgia não nos deixa sozinhos na busca de um presumido conhecimento individual do mistério de Deus, mas nos leva pela mão, juntos, como assembleia, para nos conduzir ao mistério que a Palavra e os sinais sacramentais nos revelam. Faz isso em coerência com o agir de Deus, seguindo o caminho da Encarnação, pela linguagem simbólica do corpo, que se estende às coisas, ao espaço e ao tempo.” (Desiderio Desideravi, n. 19)

Uma das diferenças mais profundas entre liturgia e devoção está justamente aqui: em quem toma a iniciativa. Na devoção, percebemos facilmente o movimento do ser humano em direção a Deus. O fiel reza. Pede. Agradece. Contempla. Expressa sua fé. Na liturgia, porém, o movimento fundamental começa em Deus. É Deus quem vem ao encontro de seu povo. Em Cristo, ele nos comunica sua graça. Pelo Espírito Santo, a obra da salvação se torna sacramentalmente presente na vida da Igreja. Por isso, a liturgia possui uma força que não depende apenas do nosso estado emocional. Podemos estar mais ou menos concentrados. Podemos sentir maior ou menor consolação espiritual. Podemos até atravessar um período de aridez interior. Ainda assim, Cristo continua agindo em sua Igreja. Naturalmente, isso não significa que nossa participação seja dispensável. Ao contrário. Somos chamados a participar ativa, consciente e plenamente. Mas a liturgia não nasce de nossos sentimentos. Ela nos precede.

Especificamente sobre a Eucaristia, o Papa Francisco escreveu:

“Antes de nossa resposta ao convite que Ele faz - muito antes, existe seu desejo de nós: pode acontecer de não estarmos conscientes disso, mas, todas as vezes que vamos à Missa, nós o fazemos, porque somos atraídos pelo desejo que Ele tem de nós. De nossa parte, a resposta possível e o ascetismo mais exigente é, como sempre, a de se render ao seu amor, de querer se deixar ser atraído por Ele. Certamente, cada comunhão nossa com o Corpo e o Sangue de Cristo foi desejada por Ele na Última Ceia.” (Desiderio Desideravi, n. 6)

O Concílio Vaticano II utilizou duas expressões muito fortes para falar da liturgia: fonte e cume. Fonte, porque dela nasce continuamente a vida cristã. Cume, porque para ela converge toda a ação da Igreja. A catequese, a evangelização, a missão, a caridade, a vida comunitária e a espiritualidade encontram na liturgia sua expressão mais profunda. Isso explica por que nenhuma devoção pode substituir a liturgia. Uma comunidade pode viver sem determinada novena ou sem determinada prática devocional. Não pode, contudo, viver cristãmente sem os sacramentos. A devoção é valiosa. Mas a liturgia é constitutiva da vida da Igreja.

O próprio Concílio Vaticano II recomenda os exercícios de piedade do povo cristão. Mas estabelece um princípio muito importante: a devoção deve manter-se vinculada à liturgia, dela de algum modo derivar e a ela conduzir. Este é o critério: a devoção deve nascer da liturgia e reconduzir à liturgia. Podemos imaginar assim: a liturgia alimenta a fé; a fé se prolonga na oração pessoal e na devoção; e essa devoção conduz novamente à celebração da Igreja. Não existe, portanto, uma verdadeira oposição entre liturgia e devoção. Existe uma relação de ordem. A liturgia ocupa o centro. A devoção acompanha, aprofunda, prolonga e interioriza.


Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo