Uma leitura das novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2026-2032)
Pe. Luiz Antonio Belini
Periodicamente, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publica as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja (DGAE). Algum acontecimento extraordinário pode fazer com que sua vigência seja prorrogada, como ocorreu, por exemplo, com a morte do papa Francisco. À primeira vista, pode parecer apenas mais um documento, destinado sobretudo ao clero e aos agentes de pastoral mais engajados. Na realidade, trata-se de algo muito maior. As Diretrizes procuram responder a uma pergunta que acompanha a Igreja desde os tempos dos Apóstolos: como anunciar o Evangelho às pessoas de hoje, em seu próprio contexto?
A pergunta permanece a mesma. O mundo, porém, muda constantemente. Mudam as formas de viver, de trabalhar, de se comunicar, de educar os filhos, de compreender a família e a sociedade, de construir relações. Basta pensar no quanto as mídias sociais transformaram nosso modo de viver na última década. Mudam também as perguntas que homens e mulheres dirigem à fé. Por isso, a Igreja precisa renovar continuamente sua maneira de evangelizar, permanecendo fiel ao mesmo Evangelho. É justamente esse o espírito das novas Diretrizes para o período de 2026 a 2032.
Uma caminhada que vem de longe. Quem acompanha a vida da Igreja percebe que as Diretrizes fazem parte de um caminho iniciado há muitas décadas. Depois do Concílio Vaticano II (1962-1965), a Igreja redescobriu-se como Povo de Deus, chamado a viver em comunhão e a servir ao mundo. Mais tarde, a Igreja latino-americana insistiu numa evangelização comprometida com a vida, a justiça e os pobres, sobretudo a partir das Conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979). A Conferência de Aparecida (2007) recordou que cada cristão é chamado a ser discípulo missionário: quem encontra Jesus Cristo deve anunciá-lo aos irmãos.
As novas Diretrizes permanecem firmemente enraizadas nessa tradição. Não abandonam nenhuma de suas grandes intuições. Continuam valorizando a Palavra de Deus, a celebração dos sacramentos, a formação dos cristãos, a missão, a caridade, as pequenas comunidades e a presença da Igreja junto aos que mais sofrem. Assumindo o convite e a linguagem do papa Francisco, propõem uma Igreja "em saída", presente em todas as periferias existenciais. Ao mesmo tempo, acrescentam uma pergunta nova: como caminhar juntos para realizar essa missão? É aqui que aparece a grande contribuição do recente caminho sinodal vivido pela Igreja em todo o mundo.
Continuidade fundamental. Recentemente foram publicadas as DGAE 2026–2032, fruto da caminhada sinodal da Igreja no Brasil, concluída na 62ª Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida (23/04/26). Essas Diretrizes não representam uma mudança de rumo, mas um desenvolvimento. Permanece praticamente intacta a grande inspiração assumida desde a Conferência de Aparecida: formar discípulos missionários de Jesus Cristo.
Continuam presentes os eixos que já estruturavam as Diretrizes anteriores: a centralidade da Palavra de Deus; a iniciação à vida cristã; a concretização da vida eclesial em pequenas comunidades missionárias; a evangélica opção preferencial pelos pobres e por todos os que vivem nas periferias existenciais; o compromisso social; e a formação permanente dos evangelizadores. O que muda é, sobretudo, o modo de compreender a própria Igreja.
Da "Casa" para a "Tenda". Talvez esta seja a mudança simbólica mais significativa das novas Diretrizes em relação às anteriores. Cada conjunto de Diretrizes se organizou em torno de uma imagem de Igreja. Nas DGAE 2019–2023 (prorrogadas), a imagem dominante era a da Casa. A Igreja era apresentada a partir de quatro pilares: Casa da Palavra, com a Bíblia animando a vida e a pastoral, bem como a iniciação à vida cristã; Casa do Pão, com a Eucaristia como centro da liturgia e da espiritualidade; Casa da Caridade, voltada para a defesa da vida plena em todos os seus âmbitos; e Casa da Missão. Era uma imagem inspirada nas primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47). A preocupação principal era fortalecer as comunidades diante de uma sociedade cada vez mais fragmentada.
Nas DGAE 2026–2032, a imagem passa a ser a Tenda do Encontro, presente ao longo de toda a Bíblia, especialmente no Êxodo. Enquanto a Casa sugeria estabilidade, a Tenda evoca dinamismo: mobilidade, peregrinação, abertura, acolhida, flexibilidade e missão.
“Com a imagem da tenda, estas Diretrizes expressam o espírito que deve mover nossa ação evangelizadora: ser comunidade que se alarga, escuta os sinais dos tempos, faz o discernimento para a conversão pastoral e sai em missão. Esta tenda, sustentada pelas estacas bem firmes da fé, da esperança e da caridade, é espaço de comunhão, participação e missão. Como povo que a habita, saímos rumo às periferias geográficas e existenciais (EG, n. 30), colaborando na implantação do Reino de Deus, que ultrapassa a história (SS, n. 17-21). Nessa perspectiva, habitando a tenda da Igreja, buscamos, entre as coisas que passam, o Eterno, pois não temos aqui morada permanente (Hb 13,14).” (DGAE 2026–2032, n. 9)
Isso está profundamente ligado ao espírito da sinodalidade. A Igreja deixa de ser vista prioritariamente como o lugar para onde as pessoas vêm e passa a ser compreendida como um povo que caminha junto. O próprio processo de elaboração das atuais Diretrizes foi sinodal. Elas estão profundamente influenciadas pelo papa Francisco e pelo documento final do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade, Por uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação, Missão (2 a 27 de outubro de 2024). Nele também aparece uma imagem marcante da Igreja: “A Igreja sinodal pode ser descrita recorrendo à imagem da orquestra...” (n. 42).
Esta talvez seja a principal novidade. Nas DGAE anteriores já se falava em comunhão; agora, fala-se de sinodalidade. Não como um programa. Nem como uma pastoral. Mas como um modo permanente de ser Igreja. Isso altera muitas perspectivas. Antes, participação como colaboração; agora, participação como corresponsabilidade. Antes, consulta; agora, discernimento comunitário. Antes, execução de decisões; agora, construção conjunta dos caminhos pastorais.
Da organização pastoral à conversão pastoral. Nas Diretrizes anteriores havia forte preocupação com o planejamento, as prioridades pastorais e a articulação entre as pastorais. As novas Diretrizes insistem muito mais na necessidade de uma conversão espiritual. A palavra "discernimento" atravessa todo o documento. Não basta organizar melhor. É preciso perguntar continuamente: "O que o Espírito Santo está pedindo a esta Igreja?" Há aqui uma mudança de acento.
A tenda permanece aberta e pode ser ampliada. A orquestra continua afinando seus instrumentos. O concerto ainda não terminou. Somos todos convidados a tomar parte nessa grande sinfonia da esperança, conduzida pelo Espírito Santo e orientada para o Reino de Deus. Este artigo foi apenas um aperitivo. Vale a pena ler o documento.
Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo