Quando adolescente, tive a oportunidade de ler os principais clássicos da literatura brasileira e alguns da literatura mundial. Entre eles, sempre me chamou muita atenção Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Para ser mais exato, o título original é El ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha (O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote da Mancha). Um dos livros mais traduzidos e lidos do mundo. No Servindo passado, analisei a espiritualidade cristã a partir da canção do Padre Zezinho, Amar como Jesus amou. Uma das frases marcantes dessa canção é, justamente, “Sonhar como Jesus sonhou”. Lembrei-me imediatamente de Dom Quixote.
Nos acostumamos a falar em espiritualidade cristã. Mas ela tem um núcleo antropológico profundo que compõe, inevitavelmente, todo ser humano. O que existe é uma pluralidade de modos de sua realização. Cervantes (nasceu em Alcalá de Henares, em 1547 e morreu em Madri, em 1616) viveu em um mundo culturalmente cristão, embora em um momento turbulento. Estava se desintegrando a Europa medieval e a própria unidade católica. Nasceu contemporaneamente ao Concílio de Trento (1545 a 1563) e morreu no auge da Contra Reforma. Embora sua obra seja um romance, está permeada, a seu modo, de valores e ideais cristãos. Ainda jovem, Cervantes participou da célebre batalha de Lepanto, em 1571, enfrentando o Império Otomano ao lado da Liga Santa. Foi gravemente ferido na mão esquerda, que ficou parcialmente inutilizada. Mais tarde, ele próprio afirmaria considerar Lepanto a maior honra de sua existência.
A vida de Cervantes não foi fácil nem gloriosa. Quando retornava à Espanha, foi capturado por corsários e levado para Argel como escravo. Passou cerca de cinco anos em cativeiro, tentando fugir diversas vezes. Libertado por religiosos trinitários, regressou à Espanha trazendo consigo uma experiência profunda do sofrimento humano. Nos anos seguintes, viveu com dificuldades econômicas, trabalhou como arrecadador e enfrentou acusações administrativas que o levaram inclusive à prisão. Morreu sem riqueza e sem imaginar plenamente a dimensão universal que sua obra alcançaria. Estes fatos certamente ajudaram Cervantes, inquieto e investigativo, a atingir um nível de sensibilidade e profundidade sobre a natureza humana que marcaram sua obra. Conhecia a dor, a humilhação, o fracasso e a violência da vida real. Seu personagem, Dom Quixote, não nasce da ingenuidade, mas da esperança que insiste em sobreviver apesar da dureza do mundo.
Cervantes cruzou novamente meu caminho em janeiro de 2007. Preparamos um encontro para vinte casais da paróquia. Foi o chamado “Fim de Semana” do Encontro Matrimonial Mundial, um movimento da Igreja Católica focado em restaurar e enriquecer o diálogo, a intimidade e o relacionamento de casais, sacerdotes e religiosos. Como um hino do Encontro, aprendemos e cantamos “El Sueño Imposible” (O Sonho Impossível), assim, em sua versão espanhola. É uma canção inspirada em Dom Quixote de Cervantes.
Embora com pequenas alterações, a encontramos em muitas versões. Ela expressa bem o universo espiritual e literário de Cervantes e do protagonista de sua obra-prima, Dom Quixote. Sua origem está no teatro estadunidense, no musical da Broadway Man of La Mancha, criado por Mitch Leigh (música), Joe Darion (letra) e Dale Wasserman (texto dramático). O musical estreou em 1965, fez muito sucesso e foi adaptado para outros países, inclusive o Brasil. Nele aparece a canção “The Impossible Dream (The Quest)”. Muitos cantores a gravaram, inclusive Elvis Presley. Vou analisar aqui a versão espanhola que cantamos no Encontro e que traduzo algumas estrofes para o português (disponível no You Tube na voz de Paloma San Basílio), cotejando com o livro.
Sonhar, o impossível sonhar/ Vencer o invicto rival/ Sofrer a dor insuportável/ Morrer por um nobre ideal/ Saber corrigir o erro/ Amar com pureza e bondade/ Crer em um sonho impossível/ Com fé uma estrela alcançar/ Esse é o meu afã e hei de alcançá-lo/ Não importa o esforço/ Não importa o lugar/ Sairei a combater/ E o meu lema será defender a virtude/ Ainda que deva o inferno pisar/ Porque sei que se logro ser fiel/ A tão nobre ideal/ Dormirá minha alma em paz ao chegar/ O instante final.
A música fala da coragem de permanecer fiel a uma missão mesmo quando o mundo inteiro parece considerá-la absurda. E é exatamente isso que encontramos em Dom Quixote. Contudo, não se trata de um idealismo ingênuo. Cervantes criou um personagem paradoxal: ridículo e sublime ao mesmo tempo. Dom Quixote é um homem envelhecido, pobre e aparentemente enlouquecido pela leitura excessiva dos romances de cavalaria. Decide tornar-se cavaleiro andante em uma época em que já não se acredita mais nos ideais cavaleirescos. Enquanto todos enxergam moinhos de vento, estalagens e camponeses comuns, ele vê gigantes, castelos e damas nobres. A primeira reação do leitor costuma ser o riso. Contudo, aos poucos, a narrativa transforma esse riso em admiração. A “loucura” de Dom Quixote revela uma verdade perturbadora: talvez os verdadeiramente loucos sejam aqueles que perderam toda capacidade de sonhar.
Cervantes constrói seu personagem Dom Quixote com uma fina ironia. Em muitos aspectos ele se apresenta como louco. Mas sua “loucura” frequentemente revela uma sabedoria moral superior ao pragmatismo dos demais personagens. Ele deseja: defender os fracos; restaurar a justiça; proteger os humildes; agir com honra e viver segundo um ideal elevado. Os “sãos”, porém, frequentemente aparecem como egoístas, violentos, interesseiros ou cínicos. Nesse sentido, Cervantes apresenta uma das perguntas mais profundas da literatura ocidental: É possível viver humanamente sem algum ideal que vá além do mero cálculo prático? A figura de Dom Quixote toca diretamente uma dimensão espiritual do ser humano. Ele recusa reduzir a realidade àquilo que é imediatamente útil. Sua vida aponta para algo maior. E, nesse sentido, sua obra permanece ligada a uma cultura permeada pelos temas cristãos.
A canção traduz admiravelmente o núcleo espiritual do romance quando Dom Quixote canta: Sofrer a dor insuportável/ Morrer por um nobre ideal. Nos soa como uma linguagem vocacional. Não se trata de vencer a qualquer custo, mas de permanecer fiel ao bem mesmo sem garantia de sucesso. A dignidade do personagem nasce precisamente da desproporção entre suas forças e sua missão. Nesse ponto, a canção assume uma dimensão quase religiosa. Também aqui encontramos um fundo cristão. O cristianismo sempre valorizou figuras aparentemente fracassadas aos olhos do mundo: os mártires; os santos; os profetas; os pobres de espírito; aqueles que permanecem fiéis em meio à perseguição. O próprio Cristo crucificado representa, para muitos de seu tempo, um “fracasso”. São Paulo escreve:
“Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,23).
Há algo profundamente evangélico nessa lógica de Quixote. O discípulo de Cristo é chamado a perseverar mesmo quando a vitória não parece visível. Em Dom Quixote encontramos traços quase ascéticos: suporta humilhações; aceita o sofrimento; mantém-se fiel à missão; combate por uma verdade maior do que ele próprio. Sua grandeza não está no triunfo material, mas na fidelidade.
Sei que se logro ser fiel/ A tão nobre ideal/ Dormirá minha alma em paz ao chegar/ O instante final.
Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo