Dedicar um mês a Maria é uma prática muito antiga e amplamente difundida nas Igrejas cristãs. Durante este período, a lembrança contínua da Mãe do Senhor deve levar seus devotos a se aproximarem mais de seu Filho, Jesus, no espírito evangélico do convite: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). No Oriente cristão, especialmente no rito bizantino, o mês de agosto é dedicado a Maria desde o século XIII. No Ocidente, os vestígios de um mês mariano aparecem um pouco mais tarde, consolidando-se a tradição de maio como o mês a ela consagrado.
O primeiro a associar explicitamente este mês à Virgem foi Afonso X, o Sábio, rei de Castela e León, falecido em 1284. No sentido moderno do termo — isto é, como mês mariano estruturado com práticas devocionais cotidianas — tal difusão se deve ao jesuíta Dionisi, autor do livro Mês de Maria, publicado em Verona, em 1725, no qual fixou por escrito costumes já presentes naquela região. Em meados do século XVIII, a devoção do mês de maio já estava amplamente difundida na Europa e na América, sendo posteriormente reforçada pela proclamação do dogma da Imaculada Conceição, em 1854.
Mas por que o mês de maio? No hemisfério norte, sobretudo na Europa, este período marca o início da primavera, quando a natureza floresce com vigor, especialmente nas flores. O mundo antigo, profundamente ligado ao ciclo natural das estações, celebrava diversas festas nesse tempo, entre elas uma dedicada à “Flora Mater”, deusa da vegetação. Como ocorreu com outras manifestações culturais, os cristãos souberam assumir esses elementos e conferir-lhes um novo significado, orientando-os para a expressão da fé.
A própria palavra “maio”, em muitos lugares, designava, durante as festas primaveris, a árvore plantada no centro das cidades ou nas praças destinadas às celebrações populares — prática que encontra certo paralelo na árvore de Natal. Ainda que não haja relação direta com a atual comemoração do Dia do Trabalho — ligada à II Internacional Socialista, realizada em Paris, em 1889, quando se reivindicava a jornada laboral de oito horas —, sabe-se que, já no século XIV, em Paris, a corporação dos ourives costumava levar, no dia 1º de maio, à catedral de Notre-Dame um “maio”: planta ornamentada com pedras preciosas, emblemas e fitas.
Mesmo após o Concílio Vaticano II (1962–1965), que procurou recentrar a vida cristã na liturgia e recuperar a centralidade de Cristo e, consequentemente, da Eucaristia, o mês de maio conservou sua importância como expressão da piedade mariana. O papa Paulo VI, na exortação apostólica Marialis Cultus, longe de desejar suprimir essas práticas, encorajou que se evidenciasse o caráter mariano do tempo do Advento e se promovesse uma renovação das devoções, para que manifestassem com maior clareza o seu fundamento cristológico e eclesiológico. Muitas vezes, de fato, a devoção a Maria correu o risco de se desligar de seu Filho e da própria vida da Igreja.
O mês de maio culmina com a celebração da Visitação de Maria à sua prima Isabel, no dia 31, conforme o relato do Evangelho segundo Lucas (1,39–56). Nesse encontro, Isabel acolhe Maria com alegria, e Maria, por sua vez, entoa o seu cântico de louvor pelas maravilhas que Deus realiza em sua vida. Ali encontramos uma fonte inesgotável para a oração cristã cotidiana, superada apenas pelo Pai-Nosso ensinado pelo próprio Senhor. Em muitas comunidades, esse último dia é marcado pelas tradicionais coroações de Nossa Senhora. Reconhecer Maria como “Rainha” significa colocar-se sob sua maternal condução, permitindo que ela nos guie sempre a Cristo. Que a “Cheia de Graça” interceda por nós, agora e na hora de nossa morte.
Entre as orações mais antigas dirigidas à Virgem encontra-se o Sub tuum praesidium, atualmente presente na liturgia da Igreja universal. De origem remotíssima, essa invocação difundiu-se ao longo dos séculos em diferentes línguas e culturas, dando origem a diversas variantes textuais. Com a preocupação de permanecer fiel a uma das formas mais antigas, pode-se traduzi-la assim:
“Sob o amparo de tua misericórdia, nós nos refugiamos, ó Mãe de Deus; não deixeis cair em tentação os que te suplicam, mas livra-nos do perigo, somente tu casta e bendita”.
Composta originalmente em grego, a oração foi recebida no Ocidente em diferentes tradições litúrgicas. A versão romana aparece pela primeira vez no Liber Responsorialis, atribuído a Gregório Magno, e também no Antifonário de Compiègne, do século IX. Dela derivaram versões em diversas línguas neolatinas. A tradição ambrosiana, por sua vez, conserva uma forma mais arcaica — Sub tuam misericordiam — considerada mais próxima do texto original.
À primeira vista simples, essa oração suscita hoje grande interesse histórico e teológico: trata-se, comprovadamente, da mais antiga invocação mariana direta de que se tem notícia. Em 1917, um fragmento de papiro medindo 18 por 9,4 centímetros foi adquirido no Egito pela John Rylands Library, de Manchester, sendo publicado apenas em 1938. Embora o texto se apresentasse parcialmente deteriorado, identificou-se nele o Sub tuum praesidium. O Egito parece ter sido a pátria de origem dessa oração.
A demora na publicação do documento não deixou de chamar atenção. Segundo alguns estudiosos, o papirólogo C. H. Roberts teria experimentado certo “embaraço confessional”, já que o texto fornecia testemunho significativo da antiguidade do culto mariano. Enquanto parte do protestantismo sustenta que tal culto seria uma evolução tardia e distorcida, o papiro aponta para uma realidade diversa. Roberts o datou inicialmente no século IV, mas outros especialistas defenderam que não poderia ser posterior ao século III. Assim, a oração testemunha a existência de formas de piedade mariana bem anteriores ao Concílio de Éfeso (431), o qual, na verdade, reconheceu e confirmou a fé já vivida e celebrada pela Igreja.
Foi mérito de Feuillen Mercenier, monge do mosteiro de Chevetogne, identificar nos fragmentos o texto do Sub tuum praesidium e propor sua reconstrução. Como acontece com muitas orações litúrgicas antigas, também esta se inspira profundamente na Sagrada Escritura, especialmente nos Salmos da Septuaginta, que exprimem o clamor confiante do povo que busca refúgio e proteção em Deus. Aqui, tais expressões são aplicadas à Virgem Maria, em quem os cristãos reconhecem uma intercessora segura.
O contexto histórico provável de sua composição é o tempo das perseguições, quando numerosos fiéis deram testemunho supremo de sua fé. Sob o imperador Valeriano, por exemplo, foram martirizados São Cipriano, na África, e, em Roma, o papa Sisto II e o diácono São Lourenço.
Alguns termos presentes no papiro merecem particular atenção: “casta”, “bendita” (ou “gloriosa”) e, sobretudo, Theotókos. Este último, que significa literalmente “Genitora de Deus”, corresponde ao título “Mãe de Deus”. No Concílio de Éfeso, em 431, tal expressão foi solenemente proclamada como verdade de fé, não tanto por uma preocupação mariana isolada, mas em defesa da correta compreensão da pessoa de Jesus Cristo. Naquele Concílio, prevaleceu a posição teológica de Cirilo de Alexandria, segundo a qual as naturezas humana e divina se unem verdadeiramente na única pessoa do Filho. Por isso, a Virgem pode ser chamada legitimamente “Mãe de Deus”, pois deu à luz, segundo a carne, o próprio Verbo encarnado.
O Sub tuum praesidium expressa de modo particularmente eficaz a confiança da comunidade cristã na intercessão da Virgem Maria, reconhecida como Mãe de Deus e refúgio de misericórdia. Nele se afirma a certeza de que ela acolhe e atende as súplicas dos fiéis, sobretudo nas situações de necessidade e perigo.
Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo