RECUPERAR A ESPIRITUALIDADE DE JESUS

03 de Março de 2026

"RECUPERAR A ESPIRITUALIDADE DE JESUS"

    Durante os anos de 2024 e 2025, na Escola Bíblica Paroquial de Quinta do Sol, lemos a obra Jesus: aproximação histórica (7ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014), de José Antonio Pagola, sacerdote católico e teólogo espanhol, nascido em 16 de junho de 1937, em Añorga, no norte da Espanha. Pagola é bastante ativo nas mídias e redes sociais. Sobre espiritualidade, há algumas abordagens que valem a pena mencionar. Cito aqui apenas três: o livro Voltar a Jesus: para a renovação das paróquias e comunidades (Petrópolis: Vozes, 2015); um texto com anotações para uma espécie de palestra, de 2011, intitulado Recuperar la espiritualidad de Jesús, título tomado de empréstimo para este artigo; e, por fim, essas anotações, posteriormente desenvolvidas e apresentadas em forma de artigo, publicado em português com o título Espiritualidade Centrada em Jesus (STUDIUM: Revista Teológica. Studium Theologicum de Curitiba. Ano 4, n. 7-8, 2010, p. 51-68). A seguir, apresento algumas ideias desenvolvidas por Pagola.

    Antes de tudo, é preciso esclarecer o que se entende por espiritualidade, pois, atualmente, essa palavra parece pouco afortunada. Para muitas pessoas, pode soar como algo pouco prático, distante da realidade, inútil. Por outro lado, o que mais valorizamos é o espírito de uma pessoa: seus desejos, paixões, ou seja, aquilo que a move e contagia ao seu redor. Em sentido amplo, espiritualidade significa viver com espírito, isto é, não viver automaticamente, programado desde fora, de forma inconsciente. Espiritualidade diz respeito, portanto, às motivações fundamentais de nosso agir e existir. Cristão é aquele que se deixa inspirar pelo Espírito de Jesus, a quem deve sempre voltar.

    “Se quisermos voltar a Jesus como o único Senhor, o único Salvador, precisamos recuperar o seu Espírito, o que significa viver impregnados e motivados pelo Espírito de Jesus. Falo a partir da convicção de que não há nada mais urgente, na Igreja de hoje, do que voltar a Jesus, para centrar a nossa espiritualidade nele e em seu projeto, para centrar a nossa fé com mais verdade e fidelidade em Jesus” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 2).

    Voltar a Jesus não é uma urgência apenas individual ou, como em muitas espiritualidades de nosso tempo, intimista. Trata-se, sim, de um esforço pessoal, mas também comunitário e eclesial. “Em um tempo de mudança sociocultural sem precedentes, precisamos de um retorno, de uma conversão convicta e apaixonada por Jesus, no interior da própria Igreja” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 2). Um dos trabalhos de Pagola tem sido justamente criar e animar os chamados Grupos de Jesus, reunidos em torno dos Evangelhos para vivenciar e partilhar o encontro e o seguimento dele. A espiritualidade cristã nasce de uma experiência pessoal de Deus, por meio do encontro com Jesus. Não se reduz a uma adesão doutrinal, à simples aceitação de um certo número de verdades de fé; é experimentada, primeiramente, como um estilo de vida realizável em qualquer cultura e em qualquer época: o estilo de viver do Filho de Deus feito homem para nossa salvação.

    “Não se trata de depreciar o conteúdo doutrinal da visão religiosa que a Igreja desenvolveu durante vinte séculos no interior da cultura ocidental, mas de integrá-lo e, sobretudo, vivê-lo a partir de uma percepção mais fundamental e central da fé cristã como estilo de vida: a maneira de ser, de atuar e de viver como Jesus. Reconhecemos Jesus como Cristo e Senhor não só afirmando doutrinas, mas sobretudo seguindo seus passos. (...) Aprender o estilo de vida de Jesus é fundamental para recuperar nossa identidade de discípulos e seguidores seus.” Um estilo de vida é “uma maneira de estar na vida, uma forma de habitar o mundo, de interpretá-lo e de construí-lo; uma maneira de tornar a vida mais humana. O característico desse estilo de viver é que ele se inspira em Jesus. Nasce da relação com ele. É-nos transmitido o seu Espírito. Aprendemos sua maneira de pensar, sentir, amar, orar, sofrer, criar, confiar e morrer. Pouco a pouco, vamos convertendo-nos em ‘discípulos’ e ‘discípulas’ de Jesus” (Voltar a Jesus, p. 65-66).

    A espiritualidade cristã, tal como desenvolvida por Pagola, capaz de alimentar a fé e a ação de todo cristão em seu contexto existencial, brota da experiência de Deus no encontro com Jesus. Sua fonte imediata e indispensável são os Evangelhos. Estes não são livros didáticos para estudos acadêmicos, nem catecismo, tampouco biografias no sentido atual do termo. “O que se recolhe nesses escritos é o impacto causado por Jesus nos primeiros que se sentiram atraídos por ele e responderam ao seu chamado. (...) a memória de Jesus tal como ele era recordado, crido e amado por seus primeiros seguidores” (Voltar a Jesus, p. 62).

    A espiritualidade de Jesus, a quem seguimos, está enraizada na experiência profética de Israel. Como profeta, ele entende a realidade a partir de Deus; indigna-se com a injustiça e a opressão e as denuncia como afastamento da vontade divina, mas o faz com abertura esperançosa. Apresenta Deus com um frescor e uma novidade incomparáveis. Deus é Boa Notícia que penetra em nossa vida para torná-la mais humana. O centro da mensagem de Jesus não é a sua pessoa, mas o Reino de Deus, que não é algo distante e abstrato, mas profundamente existencial. “Na realidade, conhecendo Jesus, sabemos que Deus é acolhido no coração, mas se desenvolve na vida, ali onde se vive como Deus quer. Jesus pensava: como seria a vida no Império Romano se não reinasse Tibério, mas alguém que fizesse as coisas como Deus queria? (...) Portanto, os caminhos do Reino são interiores e sociais…” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 7).

    Essa espiritualidade engloba a justiça, a misericórdia, a dignidade dos pobres e a transformação das relações humanas. A experiência de Deus e de seu Reinado tem menos a ver com êxtases e mais com práticas de misericórdia. A espiritualidade de Jesus é uma espiritualidade a serviço de uma vida mais humana, para que todos tenham vida em plenitude. “Espiritual, para Jesus, implica estar próximo dos últimos” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 9).

    Essa afirmação introduz o núcleo da espiritualidade de Jesus: a compaixão. É o critério decisivo da vida cristã. Não se trata de um sentimento passageiro nem de mera piedade emotiva, mas de uma atitude profunda, existencial e prática, que nasce do modo como Jesus se relacionava com o sofrimento humano. Compaixão é a capacidade de sofrer com o outro, de se fazer “próximo” dele, como nas parábolas que Jesus contava, por exemplo, a do bom samaritano. Pagola distingue claramente a compaixão da piedade e da misericórdia, que muitas vezes podem assumir um caráter “de cima para baixo” ou permanecer apenas no campo do sentimento. A compaixão leva à ação. Jesus a introduz como critério decisivo: “Sede compassivos como o vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36). “A compaixão não é uma virtude a mais, mas é a única maneira de olhar para a vida, as pessoas e os acontecimentos a partir de uma atitude mais semelhante à de Deus. É a única maneira de sermos humanos. É preciso colocá-la no centro da espiritualidade e da Igreja, para nos humanizarmos” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 10).

    Recuperar a espiritualidade de Jesus exige de nós a recuperação do estilo de oração de Jesus: o Pai-Nosso, centro de toda espiritualidade cristã. O Pai-Nosso “compromete-nos a meditar, a interiorizar… configura-nos interiormente. Compromete-nos na tarefa do Reino, introduz-nos em sua espiritualidade” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 7).

    “Jesus pode ser, neste tempo apaixonante, fonte e caminho humilde de uma espiritualidade sã, libertadora, criativa, atraente e geradora de esperança. Nada atrairá mais na Igreja do que as testemunhas capazes de viver com o espírito de Jesus” (Recuperar la espiritualidad de Jesús, p. 3).


Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo