O CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE

19 de Fevereiro de 2026

"O CAMINHO DA ESPIRITUALIDADE"

    No final de 2025, nossas paróquias realizaram suas Assembleias Paroquiais e, posteriormente, a Assembleia Diocesana. Como resultado desse processo sinodal, emergiram algumas linhas de ação pastoral prioritárias para 2026, bem como três grandes eixos que atravessam a vida da Igreja diocesana: Espiritualidade, Comunhão e Organização. São palavras comuns, muito usadas por nós, mas, ao mesmo tempo, amplas e de significados diversos. Este artigo e os próximos visam ajudar na compreensão e uso da palavra espiritualidade, bem como no crescimento de nossa vivência espiritual.

    Em 1986, iniciei o curso de Teologia em Londrina, no Instituto Teológico Paulo VI, para onde eram enviados, geralmente, os seminaristas de nossa diocese. Entre as primeiras disciplinas, uma chamava-se Teologia Espiritual. O professor, Frei Toninho (Antônio Rodrigues de Lima: 1934-2016), um capuchinho, com aquela aparência clássica, barba e fala mansa, trazia a aula bem sistematizada em fichas de leitura. Nós brincávamos que, se conseguíssemos tirar dele aquelas fichas, não teríamos aula. Mas Frei Toninho era sábio e de mente aberta. Como manual para nossas aulas, que ele esquematizava em suas fichas, usava um livro chamado O Caminho da Espiritualidade (São Paulo: Paulinas, 1983), do padre Segundo Galilea (1928-2010). Ainda o tenho comigo e, sendo os livros bons como velhos amigos, de vez em quando o visito, ou seja, o releio. A última vez foi em 2004, quando estava escrevendo sobre a espiritualidade da cruz. De vez em quando o apresento a alguém, como quem apresenta um velho amigo.

    Segundo Galilea foi um sacerdote católico, escritor e animador pastoral, nascido em 3 de abril de 1928, em Santiago do Chile e falecido em 27 de maio de 2010, também ali. Ele é reconhecido por sua contribuição significativa à teologia e à espiritualidade cristã na América Latina. Quando ainda se falava muito da pastoral das elites, ele já era capaz de olhar com novos olhos para a pastoral popular, de compreendê-la, purificá-la e integrá-la. Será um prazer apresentar algumas ideias deste amigo: o livro.

    O título (El Camino de la Espiritualidad, no original espanhol) não é por acaso. Para ele, a espiritualidade é o processo concreto pelo qual o cristão vive sua relação com Deus no seguimento histórico de Jesus. Por isso, o caminho do título indica dinamismo, processo, conversão contínua.

    “Hoje, falamos mais de ‘seguimento’ de Cristo do que de ‘imitação’ de Cristo. Ambas as expressões são legítimas na tradição cristã, tendo servido para sintetizar o caminho da espiritualidade. Mas atualmente preferimos ‘seguimento’ a ‘imitação’ porque ‘seguimento’ nos parece mais dinâmico, como uma tarefa inacabada através do caminho da vida.” (p.68).

    O que há de mais original na espiritualidade cristã é que “só podemos conhecer a Jesus na medida em que procuramos segui-lo. O rosto do Senhor se nos revela na experiência de seu seguimento.” (p.69). Toda espiritualidade nasce de uma experiência, não de uma ideia ou norma moral. Essa experiência, no entanto, é iniciativa de Deus, vivida no cotidiano e mediada pela história pessoal e social do sujeito. Não há espiritualidade cristã sem encontro real com Deus em Cristo. E para isso, o Evangelho é insubstituível. Nele, encontramos a pessoa de Jesus como mensagem inspiradora de todo seguimento que pode ser imitada por amor.

    “Não se trata tanto de imitar literalmente a Jesus: nem tudo o que Jesus viveu em sua época nós podemos reproduzir, da mesma forma como não somos chamados a copiá-lo em todas as contingências de sua vida. Trata-se muito mais de nos identificarmos com suas atitudes, com seu espírito, com seus valores, que Jesus encarnou nas circunstâncias de seu tempo e que agora nós devemos encarnar (seguindo-o) nas circunstâncias de nossa própria história. A alma do seguimento é Cristo conhecido e encontrado com fé e amor. Cristo é seguido na medida em que aprofundamos seu conhecimento, motivados pela fé, e queremos ser como ele, levados pelo amor.” (p.68)

    Este é o núcleo do livro: a convicção de que a espiritualidade cristã é, essencialmente, seguimento de Jesus. Seguimento que implica adesão à pessoa de Jesus e à sua mensagem; assimilação de seu estilo de vida: pobreza, serviço, obediência ao Pai; inserção nas opções concretas de Jesus, sobretudo em favor dos pobres e excluídos. Não existe espiritualidade neutra ou abstrata. Ela sempre assume um rosto histórico, mesmo que nem sempre consciente e explicitado. O seguidor de Jesus está integrado em uma sociedade tanto quanto a Igreja. Ao longo da história, percebemos como vão se sucedendo modos de concretizar a Igreja, o que geralmente chamamos de modelos de Igreja. A um determinado modelo de Igreja corresponde um determinado modelo de espiritualidade.

    “Na história, uma determinada espiritualidade não é senão uma modalidade válida de viver a fé cristã. Mas um ‘modelo’ de espiritualidade não constitui um fenômeno espiritual isolado e autônomo: ele é sempre um fato coerente com os demais fatores que constituem a vida da Igreja em determinada época e lugar e, ao mesmo tempo, também resulta deles.” (p.29)

    Os modelos de Igreja não terminam e iniciam de forma abrupta. Declinam e são gestados, às vezes em processos longos. Modelos de Igreja podem coexistir. Ainda que um seja predominante e outro periférico. É forçoso concluir que nem todo modelo de Igreja responde às questões postas em uma determinada situação histórica e cultural. Isso também pode acontecer com os modelos de espiritualidade. Devemos nos questionar sobre qual modelo de Igreja queremos e qual espiritualidade é mais apta a ele. Ou seja, como podemos seguir Jesus no aqui e agora de nossa existência pessoal, eclesial e social. A espiritualidade e seu respectivo modelo de Igreja, tal como é apresentada por Segundo Galilea, inscreve-se no contexto latino-americano, onde o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), principalmente através de suas Conferências, de Medellín (1968) a Aparecida (2007), busca aplicar o Concílio Vaticano II (1962-1965).

    O seguimento de Jesus exige constante conversão espiritual, entendida não apenas como ruptura com o pecado, geralmente centrado na dimensão moral, mas também como libertação de falsas imagens de Deus; superação do egoísmo religioso; purificação das motivações pastorais. Aparece fortemente a noção de liberdade interior, sem a qual não há maturidade espiritual nem compromisso autêntico.

    Segundo Galilea dedica uma atenção significativa em sua obra à oração. Sempre integrada à missão, antecipando, de certa forma, o que o papa Francisco popularizou como “Igreja em Saída”. Para ele,      a oração não é fuga do mundo e a contemplação não se opõe ao compromisso. Deus é encontrado tanto no silêncio quanto na ação. É preciso evitar os dois extremos: o espiritualismo evasivo e o ativismo estéril. Essa última afirmação nos coloca diante de uma de suas abordagens mais características: a espiritualidade cristã se verifica na história. O caminho espiritual passa pela solidariedade concreta com os pobres, porque assim viveu Jesus. O compromisso com a justiça é exigência da fé. No entanto, é cuidadoso em afirmar que a ação histórica não substitui a experiência de Deus, mas a expressa.

    O capítulo VIII intitula-se O Caminho da cruz. Todo ele é fabuloso e merece ser lido muitas vezes. Termino com uma citação:

    “A cruz é o símbolo da esperança cristã porque nos ensina que, na história, o mal, o egoísmo e a injustiça não têm a última palavra. A última palavra na história cabe ao bem, à fraternidade, à justiça e à paz. (...) não basta carregar a cruz: a novidade cristã está em carregá-la como Cristo (segui-lo). (...) Esse é o novo modo de carregar a cruz que Cristo nos ensina com sua morte: o de transformá-la em um símbolo e fonte de amor e entrega, tendo em vista uma libertação sempre incompleta, mas assegurada pela promessa.” (p.228)



Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo