O CONCÍLIO VATICANO II E A LITURGIA

22 de Janeiro de 2026

"O CONCÍLIO VATICANO II E A LITURGIA"

    Somos filhos do Concílio Vaticano II (1962-1965). O papa Francisco já tinha se manifestado assim. Ele foi o primeiro papa que não participou do Concílio. Os seus antecessores participaram como Padres Conciliares (os bispos que tinham participação ativa) ou como perito (assessor com reconhecida competência, nomeado para auxiliar os Padres Conciliares; foi o caso do papa Bento XVI). Reconhecer-se como “pais” ou “filhos” do Concílio não é apenas uma questão poética. Diz muito sobre o modo como nós nos relacionamos com ele.

    Há ainda outra diferença importante. Enquanto o papa Francisco e muitos cristãos viveram consciente e ativamente os dois modelos de Igreja, o anterior ao Concílio Vaticano II, que podemos simplificadamente identificar como modelo tridentino (que procedia do Concílio de Trento: 1545-1563) e o inaugurado pelo Vaticano II, a maioria de nós já cresceu no modelo atual. Significa dizer que fomos acolhidos na Igreja pelo batismo, educados na fé e vivemos o seguimento de Jesus dentro dos parâmetros eclesiais propostos pelo Vaticano II. Não temos experiência do que significava viver o seguimento de Jesus no modelo eclesial anterior. Dele apenas conhecemos por ouvir falar ou pelo estudo. Por isso, a comparação que fazemos entre os dois modelos eclesiais é, de alguma maneira, abstrata, não existencial.

    Este “limite” apontado em relação aos modelos eclesiais (de Trento e do Vaticano II) não acontece unicamente com a experiência religiosa, mas com a experiência histórica em geral. É um dado antropológico básico, já que uma dimensão do ser humano é exatamente a historicidade. Quando comparamos épocas históricas diferentes sempre o fazemos a partir da nossa vivência. Geralmente retiramos do passado aquilo que da nossa experiência cotidiana sabemos que não existia. Um exemplo pode ajudar: quando pensamos em um passado distante, retiramos dele a energia elétrica e tudo o que ela nos proporciona. Mas a vivência é diferente: enquanto para nós é o que “falta”, para os homens e mulheres do passado sequer havia a notícia da existência e, por isso, não era vivido como “falta”. O inverso pode nos ajudar também: é como se sofrêssemos hoje por algo que será inventado daqui alguns séculos e que nós nem sequer imaginemos.

    Em períodos de crise ou de confusão de valores é comum que as pessoas manifestem saudades de um passado que não viveram, mas que acabam idealizando. Um exemplo bem atual são os pequenos vídeos compartilhados pelas redes sociais idealizando os anos sessenta ou setenta. Uma casinha simples, na roça, com muitas galinhas no quintal, um fogão de lenha com um varal de carne secando sobre ele... uma imagem bucólica. São compartilhados como um paraíso perdido. Mas ninguém de fato gostaria de voltar a viver naquela situação e, mesmo que o quisesse, o mundo mudou tanto que o tornou inviável.

    Hoje encontramos pessoas com saudade de um modelo de Igreja no qual não viveram, mas que idealizam. Manifestam-se contra as mudanças identificadas como fruto exagerado ou nefasto do Vaticano II, em sua totalidade ou ao menos em partes. Como a liturgia e, nela a eucarística, é a dimensão mais expressiva de nossa vida de fé e das transformações operadas pelo Concílio, é principalmente a ela que dirigem suas críticas. Existem reações menos expressivas, mas sutis e até mais eficazes na desconstrução do modelo eclesial atual: a recuperação lenta de elementos que já haviam sido superados, tais como algumas devoções, ritos, roupas...

    A “...liturgia, como a própria Igreja, vive na história e é ligada a esta de muitas maneiras: desenvolve-se, cresce, escolhe as formas mais convenientes para ser expressão inteligível do Mistério de Cristo para os fiéis das diversas épocas e culturas. Em tal atividade consegue seu estado de maturidade, adquire valores perenes que jamais poderão envelhecer. É também verdade, todavia, que, segundo as leis do desenvolvimento histórico-cultural, ela acaba às vezes por institucionalizar-se excessivamente, assim, suas formas permanecendo imutáveis por muito tempo, tornam-se dificilmente inteligíveis para as novas gerações. É possível que aconteçam também verdadeiras degenerações, pelo menos em certos aspectos, como a Constituição Litúrgica reconhece expressamente” (Burkhard Neunheuser).

    Nos concentremos na liturgia e, sobretudo, na liturgia da missa. As mudanças operadas em nome do Concílio não foram, neste campo, fruto propriamente ou exclusivamente do Concílio, como se os Padres conciliares tivessem produzido do nada suas conclusões. Pelo contrário, o Concilio se beneficiou de pelo menos um século de reflexões e transformações. Para se ter uma ideia, basta lembrar que, dos 72 esquemas preparados antecipadamente pela Cúria Romana com seus assessores para servirem de instrumentos de trabalho no Concílio, somente um foi aceito e, com algumas mudanças, aprovado. E foi justamente o concernente à liturgia. Seu título definitivo: Constituição ‘Sacrosanctum Concilium’ Sobre a Sagrada Liturgia (SC). Os outros 71 esquemas foram simplesmente rejeitados, a maioria nem chegou à fase dos debates. Isto mostra como a SC, primeiro documento conciliar promulgado, incorporava experiências e necessidades que já estavam amadurecendo no cotidiano da vida eclesial. O que não significa que não tenha havido intensos debates em questões específicas, como no caso da língua litúrgica, ou seja, unicamente usando o latim ou também a língua falado pelos fiéis.

    Para compreender este documento, classificado como “Constituição”, ou seja, que está no nível mais alto da autoridade magisterial, tratando de questões fundamentais para a vida da Igreja, com um peso teológico e normativo superior aos outros documentos, classificados como decretos e declarações, é preciso situá-lo na história e contextualiza-lo. Aliás, o próprio Concílio insiste na necessidade de pensar a liturgia em sua dimensão histórica, seja na formação dos futuros sacerdotes, seja para empreender alguma reforma litúrgica.

    “A sagrada Liturgia deve ser tida, nos seminários e casas de estudo dos religiosos, como uma das disciplinas necessárias e mais importantes, nas faculdades de teologia como disciplina principal, e ensinar-se nos seus aspectos quer teológico e histórico, quer espiritual, pastoral e jurídico.” (SC 16) “Para conservar a sã tradição e abrir ao mesmo tempo o caminho a um progresso legítimo, faça-se uma acurada investigação teológica, histórica e pastoral acerca de cada uma das partes da Liturgia que devem ser revistas” (SC 23).

    A investigação histórica do desenrolar da liturgia, sobretudo no que se refere à celebração da missa, nos permite entender melhor aqueles elementos que são permanentes e imutáveis e aqueles transitórios, frutos de sua época. Foi justamente o que o papa João XXIII pediu em seu discurso de abertura do Concílio Vaticano II:

“É necessário que esta doutrina certa e imutável, à qual se deve prestar fiel assentimento, seja aprofundada e exposta segundo as exigências do nosso tempo. Uma coisa é o depósito da fé, ou as verdades que constituem a nossa doutrina, e outra coisa é o modo como elas são enunciadas, conservando, porém, o mesmo sentido e o mesmo alcance” (Gaudet Mater Ecclesia, 11 de outubro de 1962).

    A liturgia é composta por uma dupla realidade: uma invisível e imutável; outra visível e mutável. O papa Pio XII, em 1947, afirmou: “A liturgia é algo duradouro e vivo”. E João XXIII: “A liturgia não deve ser uma preciosa relíquia de museu, mas oração viva da Igreja”.



Artigo de Padre Belini, colunista do Jornal Servindo