BATISTÉRIO: SEIO MATERNO DA IGREJA

16 de Agosto de 2023

"BATISTÉRIO: SEIO MATERNO DA IGREJA"

Todos os ritos que descrevemos nos artigos anteriores aconteceram fora do batistério. Chegou o momento em que o catecúmeno entra no batistério para o rito do batismo propriamente dito. Vale a pena olhar atentamente para esse espaço com sua arquitetura e sua iconografia, ou seja, as imagens que ornamentam as paredes, porque revelam muito da concepção de nossa fé. Sua transformação ao longo do tempo expressa também uma transformação na própria concepção do sacramento. Dos símbolos e ritos decorrem a teologia e espiritualidade e não o inverso, como costumamos pensar.

“Desde a origem os padres explicaram os símbolos aos neófitos para introduzi-los aos mistérios aos quais tinham participado durante os diversos ritos batismais e, justamente a partir destes símbolos, elaborarão uma teologia e uma espiritualidade do batismo que a cristandade herdou até os nossos dias” (Gérard-Henry Baudry)

É, antes de tudo, preciso lembrar que a relação dos cristãos com o espaço específico de suas celebrações é diferente do que se tinha no judaísmo em relação ao Templo ou das religiões pagãs com seus templos e santuários. Sagrado não é propriamente o local, mas o povo de Deus. Aos judeus que o acusam de impiedade, Estevão afirma que o Altíssimo “não mora em casa feita por mãos humanas” (At 7,48). Paulo irá fazer a mesma afirmação: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe. Sendo Senhor do céu e da terra, ele não habita em santuários feitos por mãos humanas” (At 17,48). E será ainda mais duro: “Vocês não sabem que são templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vocês? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo, e esse templo são vocês” (1Cor 3,16-17).

Os padres apologistas dos dois primeiros séculos, aqueles que buscavam defender a fé, costumavam repetir: “não temos templos nem altares”. E mesmo mais tarde, quando a Igreja se difundiu pelo mundo construindo basílicas imponentes e os cristãos começaram a chamá-las de “Casa de Deus”, Agostinho e outros Padres os repreenderam severamente, pois viam nisso o perigo de que os fiéis, influenciados pelos costumes pagãos e mesmo judaicos, perdessem a consciência da sacralidade própria de sua condição de membros da Igreja, corpo vivo da Cabeça que é Cristo. Em um sermão de consagração de uma igreja, Agostinho ensina a chamá-la de “Casa de Oração”, já que somente a comunidade viva dos crentes é a verdadeira “casa de Deus” (Agostinho, Sermão 336).

O que não significa que os cristãos descuidassem do ambiente onde se reuniam ou celebravam. Muito pelo contrário. Mas é compreensível que inicialmente não tenham sentido necessidade de construir lugares específicos. Uma sala ampla da casa de um fiel bastava. Para o batismo era suficiente um córrego de água ou, onde fosse possível, termas privadas, uma espécie de “casa de banho”, comum entre os gregos e romanos. Com o aumento do número dos convertidos, as casas particulares não foram mais suficientes. Foi preciso construir ambientes próprios e mais adequados. O pagão Porfirio, em 268, escreve que os cristãos edificaram “salas muito amplas, onde se reuniam para rezar”. São as Domus ecclesiae (“casa da Igreja”). Infelizmente, não se pode fazer nenhuma afirmação segura sobre sua arquitetura porque o imperador Diocleciano, em 303, ordenou a destruição de todos os edifícios cristãos. Após a paz de Constantino, em 313, alguns edifícios foram erguidos sobre suas ruínas.

Entre 1920 e 1930, arqueólogos encontraram em Dura Europos, atualmente território da Síria, a primeira “casa Igreja” cristã identificada. Tudo leva a crer que fosse uma casa comum posteriormente transformada em Igreja, deve ter sido destruída juntamente com a cidade, por volta de 260. Ela possui um batistério com afrescos, uma técnica de pintura em paredes e tetos, retratando o Bom Pastor, a cura do paralítico, Cristo que caminha com Pedro sobre as águas, figuras que são consideradas as primeiras representações de Jesus. Mas também Adão e Eva, Davi e Golias. Esses afrescos foram retirados e levados para os EUA. A situação atual dessas ruínas ficou prejudicada com a ocupação pelo Estado Islâmico.

Entre os séculos IV e VI serão construídas muitas Igrejas. O seu formato seguirá o das grandes construções greco-romanas, mas de origem provavelmente persa, as basílicas, com duas novidades: um átrio e o batistério. Este, geralmente fora, como edifício autônomo, o que permitia maior privacidade, já que o batizando ficava nu. Havia uma grande variedade de formas de batistério, mas todas carregadas de simbologia. A forma mais comum parece ter sido a octogonal, ou seja, com 8 ângulos e 8 lados. Na Igreja de Santa Tecla de Milão se encontra uma inscrição que é de santo Ambrósio, explicando seu significado:

“Convinha-lhe que a sala do santo batismo fosse construída segundo este número: aquele em que o povo obteve a verdadeira salvação à luz do Cristo Ressuscitado” (Santo Ambrósio)

No cristianismo antigo, o número 8 é símbolo da ressurreição, ou seja, faz referência à manhã seguinte ao sábado em que Cristo saiu do túmulo. Tem ainda outro significado: os 7 dias são uma figura do tempo do mundo e o oitavo, o dia da vida eterna, o domingo. É neste dia inaugurado por Cristo que o cristão entra para o seu batismo, sua regeneração. Mas poderiam também ser redondos, de origem funerária, indicando que o batismo e a morte é a ressurreição em Cristo. Encontram-se ainda construções quadradas ou retangulares feitas salas contíguas às construções das Igrejas. No batistério, escavado no chão, a “banheira batismal”, um reservatório de água para a imersão parcial ou total. Em geral, tinham de 2 a 5 metros de diâmetro e em torno de 1,40m de profundidade, com três degraus para descer e três para subir, indicando a tríplice profissão de fé que faria dentro da piscina.

Os batistérios, em geral, são decorados com pinturas que retratam o paraíso com a expulsão do primeiro casal e que o batismo restaura o acesso. Representam o Cristo Bom Pastor rodeado por suas ovelhas numa situação paradisíaca com árvores, flores e fontes. Cirilo de Jerusalém inicia a preparação dos iluminandos justamente evocando essa entrada:

“Já nos impregna, ó iluminandos, o odor da bem-aventurança; já colheis as flores espirituais para tecer coroas celestiais; já do Espírito Santo a fragrância se aspira. Chegastes já a antessala do palácio régio; oxalá sejas introduzidos pelo Rei. (...) Então, para cada um de vós se abra a porta do paraíso” (CIRILO DE JERUSALÉM, Catequese Preliminar 1 e 15)

A partir do século VIII, quando o batismo de recém-nascidos se generaliza, a piscina passa a dar lugar a bacias, que mais tarde originaram as nossas pias batismais. Há um empobrecimento da simbologia do rito. Ao mesmo tempo, está mais adaptada às novas situações. Também o distanciamento no tempo da recepção dos sacramentos da iniciação, batismo, crisma e eucaristia, irão influenciar na simbologia e teologia.

Finalizando, podemos lembrar algumas orientações dos vários rituais que visam concretizar a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II: que o local da celebração do batismo e, possivelmente, a pia batismal, esteja disposta de forma a evidenciar sua ligação com a Palavra de Deus e com a Eucaristia; a expressividade pede uma fonte de água e a possibilidade de imersão; excluindo outros usos para o lugar e que seja dignamente decorado e guarde, fora do tempo pascal, o Círio. Afinal, este lugar é “onde renascem os cristãos pela água e pelo Espirito Santo” (RICA 25). É a imagem do seio da Mãe Igreja.


Artigo do Pe. Luiz Antonio Belini, colunista do Jornal Servindo